Coordenadas dos Amigos Contatados

Coordenadas dos Amigos Contatados
Esta é a relação oficial e final dos amigos encontrados, e seus pares, visando a Festa do COPA 50 Anos Depois

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

AVIADORES DA TOBIAS BARRETO

A Rua Tobias Barreto acolheu em diversas épocas quatro aviadores. O mais velho de todos, mas não seu mais antigo morador, foi o brigadeiro do ar ou coronel aviador Zenith Borba do Campo, que ao passar para a reserva da FAB adquiriu aquele bangalô branco que fica no alto, no início de quem sobe a rua pela calçada da esquerda. Acho que isso aconteceu em meados da década de 1960, pois quando fui transferido para a Base Aérea de Canoas em 1970 seu retrato já integrava a galeria de ex-comandantes daquela base. Não cheguei a conhecê-lo pessoalmente. Quando ingressei na FAB, ele dela já se despedira.
Outro foi o coronel aviador Medeiros cujos pais moravam em um sobrado cinza revestido de mica, situado na calçada da esquerda de quem sobe a rua, a meio caminho entre a Avenida Bento Gonçalves e a Praça Esperanto. Por volta de 1957 ou 1958, lembro-me de haver assistido a espetaculares voos rasantes sobre ela de um monomotor North American T-6, por ele pilotado; exibicionismo típico de aspirante ou segundo tenente aviador. Somente viemos a travar contato pessoal em 1985 em Recife, quando eu lá servia no Comando Aéreo Regional como tenente coronel recém-promovido e ele fora designado para dirigir o Parque de Material Aeronáutico lá sediado, já coronel maduro, quase brigadeiro. Não sei que tola inibição me impediu de revelar nossa origem comum. Pouco depois, deixei Recife, a FAB, e a oportunidade passou. Mais tarde, soube que ele falecera precocemente.
Na Tobias do Meio, ainda na calçada da esquerda, um dos filhos do casal Kalfelz, o Mário, era cadete do ar no final dos anos 1950. Certa vez, na época de suas férias escolares, ele foi visitar seu amigo Paulo Prestes, irmão de meu vizinho e amigo Antonio Celso, o Tonho. Estávamos todos no terraço da garagem da casa dos Prestes – Ah, os magníficos terraços abertos da Tobias Barreto! – quando um C-47 sobrevoou a rua a baixa altura. Sob uma das asas via-se a inscrição USAF. Tendo sido informado que eu estava inoculado pelo “aerococus”, Mário resolveu sabatinar-me. Perguntou que tipo de avião era aquele. “Um C-47!”, respondi de pronto. A segunda pergunta foi mais complexa: “Qual o significado da inscrição USAF?”. “United States American Force”, afirmei convicto de estar impressionando meu inquiridor.  “United States Air Force”, corrigiu Mario Kalfelz.
Voltamos a nos encontrar anos mais tarde em Brasília: ele coronel, eu major aviador. Mario apresentava deformação grave nas mãos, resultado de queimaduras sofridas em grave acidente aéreo ocorrido em Natal muitos anos antes. Naquela ocasião, o bimotor que ele e um companheiro conduziam colidiu com o terreno antes da pista da Base Aérea em meio a uma chuva torrencial em noite fechada. O avião pegou fogo. Alguns ocupantes perderam a vida. Mário sobreviveu, mas suas mãos ficaram para sempre marcadas pela tragédia.
Ainda na calçada da esquerda, agora na Tobias de Cima, um menino desde cedo sonhava em voar. Nem Zenith, nem Medeiros, nem Mario Kalfelz tiveram nada a ver com isso, mas sim meu tio Telmo, irmão de minha mãe, que na longínqua e pequena São Luiz Gonzaga do final da década de 1940 também sonhara em voar; sonho jamais concretizado por força das circunstâncias. Foi ele quem me conduziu ao portal mágico da aviação, permitindo que brincasse com seus aeromodelos, pelos quais tinha carinhos e cuidados especiais. Apesar de criança, nunca os danifiquei. Quando voei pela primeira vez em 1949, como passageiro de um DC-3 da Varig, viajando de Porto Alegre para Santo Ângelo (São Luiz não recebia voos da Varig), eu tinha quatro anos de idade e decidi que seria aviador. E assim foi.
Em 1970, quando eu liderava esquadrilhas de North American T-6 em voos noturnos sobre Porto Alegre, treinando aspirantes aviadores recém-formados, sempre dava um jeito de sobrevoar minha querida rua, fato inusitado que levou o saudoso Seu Gastão Vigevani a indagar de meus pais, seu vizinhos, se algo de anormal estaria ocorrendo – eram os anos de chumbo – para esquadrilhas estarem a sobrevoar seguidamente a cidade à noite. Que nada, Seu Gastão! Era apenas o menino Carlos Ari, trazendo vaga-lumes coloridos para iluminar o céu de sua infância...

Autor: Carlos Ari Germano da Silva

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

EU TIVE UM SONHO

Eu tive um sonho! E esta é a pequena história deste sonho, um sonho tão perfeito que pareceu ter sido realidade. Foi como se o tivesse vivido. Era palpável, vivo, colorido, emocionante ... E por esta razão, gostaria de contá-lo aos meus amigos.
Sonhei que me veio à cabeça a idéia de organizar um grande encontro com todos os amigos da minha infância e adolescência, passada no bairro do Partenon, em Porto Alegre, entre as ruas Paissandu, Tobias Barreto, Machado de Assis, Veríssimo Rosa e suas transversais, além da Avenida Bento Gonçalves, coletor principal de todas essas artérias tão queridas da nossa memória. Em meu sonho, eu claramente vislumbrava as dificuldades que haveria de encontrar na localização dos amigos remanescentes, no contato com eles e na sua aquiescência em participar do meu sonho; e eu precisava de parceiros que me ajudassem a tocar a empreitada; e temia pela receptividade que teria dos amigos contatados. E tudo era um monte de dúvidas ...
Mas no sonho, o sonho começou a tomar corpo! Um contato aqui, um contato ali e consegui juntar um pequeno grupo de amigos, ainda um pouco incrédulos, que de uma forma ou outra aceitaram participar da nossa aventura. E saímos em busca dos nomes dos nossos antigos, através de uma extensa relação que as nossas mentes ainda conseguiram devolver de um passado longínquo. Um encontro com este grupo num restaurante de Porto Alegre e lá selamos o compromisso de atingir o nosso objetivo, juntar os amigos do passado numa festa que chamar-se-ia: “COPA 50 Anos Depois”, em homenagem ao nosso “Clube Olímpico Porto Alegre”, criado naquela época, fonte de muitas das nossas alegrias e promotor de muitos casamentos entre amigos do bairro e fora dele.
E começamos a realizar os contatos com os amigos de cinqüenta anos atrás. E cada novo telefonema era uma nova preocupação sobre como seríamos recebidos; o amigo iria se lembrar de quem estava falando? Estaria ele disposto a participar de algo assim inusitado depois de cinquenta anos passados? E cada novo telefonema era sempre uma alegria renovada pela alegria do próprio interlocutor que não acreditava com quem estava falando; e aderia incondicionalmente ao convite, como se ele próprio estivesse esperando aquele convite, também por muitos anos.
E a lista dos amigos encontrados crescia e os próprios amigos contatados lembravam-se de novos nomes que nos eram repassados e o processo transformou-se numa cadeia que não mais parecia ter fim. No grupo de discussões especialmente criado para a troca de idéias e as discussões entre os amigos, as mensagens voavam em todas as direções trazendo e levando lembranças que há muito se encontravam olvidadas; e era lindo assistir ao entusiasmo de todos, mandando recados ora divertidos, ora evocativos, mas sempre emocionantes. O blog criado para a festa era o veículo de crônicas emocionadas, sobre acontecimentos passados nas décadas de 50 e 60, em que os autores eram, ora assistentes, ora participantes ou protagonistas principais. Criamos também dois álbuns de fotografias. Num deles eram postadas as fotos do passado e do presente, envolvendo os amigos e suas famílias e eram assim identificados por todos, pouco a pouco. No outro álbum, eram postadas pares de fotos: uma tirada na época da nossa juventude e outra atual, colocadas lado a lado. Com isso, os amigos se identificavam mutuamente, pelas fotos antigas, e ficavam conhecendo as suas aparências atuais. Foram muitas fotos maravilhosas enviadas!
Paralelamente, os preparativos para a festa avançavam. O local foi escolhido com muito cuidado de modo a agradar os amigos de cujo gosto nem mais nos lembrávamos, mas também pensando que o custo possivelmente influiria no atendimento aos convites que seriam enviados, pois não havia como prever e conhecer as condições financeiras de pessoas que não eram vistas há tanto tempo. Os mesmos fatores foram considerados quando se procurou o “buffett” e todos os demais itens que deveriam ser arranjados para a realização da tão almejada festa.
Finalmente, a data foi marcada! 18 de setembro do ano de 2010, seria o dia da realização do encontro dos amigos que não se viam há 50 anos. Muito próxima da entrada da primavera, seria como um novo desabrochar de uma amizade que nascera há muito tempo atrás, mas não morrera, quedando adormecida por vários invernos. E os convites foram enviados a todos os amigos que haviam sido localizados; por e-mail para aqueles que o possuíam, pessoalmente para os que não tinham e pelo correio para aqueles que moravam longe. E a cada nova confirmação de participação à festa, uma nova alegria a todos, pois que dela todos tomavam conhecimento e a ela todos aplaudiam. A alegria tomava conta de todos os participantes, que já se organizavam em mesas de acordo com as suas afinidades e preferências. Alguns sugeriam as companhias com receio de que não fossem ser reconhecidos pelos demais após tanto tempo passado, com a timidez típica da adolescência de 50 anos atrás. E o número de participantes crescia e as pessoas não acreditavam que o número final seria um redondo número 100!
A data tão esperada se aproximava e o nervosismo era visivelmente demonstrado nas manifestações da lista de discussões e nas postagens encaminhadas ao blog para publicação. Amigos de última hora, tão esperados, apresentavam-se quando já ninguém mais cria que eles compareceriam; e eram recebidos com uma alegria enorme que era imediatamente correspondida. A festa era uma certeza!
E o seu dia chegou! Eufóricos estávamos nós, da Comissão Organizadora, e mais eufóricos encontravam-se os amigos que dela participariam, antevendo e antegozando o momento maravilhoso em que voltariam a ver os companheiros de tantos tempos passados. Cedo fomos para o local da festa para a tarefa de decorar o salão. Os balões nas cores verde, preto e branco, as cores do COPA, cheios, começaram a se avolumar e logo foram pendurados em pontos estratégicos do grande salão de baile. As faixas e “banners” alusivos ao evento, nas mesmas cores, foram colocados à entrada principal, no saguão e no salão principal, com dizeres que muito bem espelhavam a amizade que perdurou por 50 anos. Os vasinhos de flores foram colocados sobre as mesas de seis lugares, com as cobertas brancas, onde as cadeiras traziam lindos laços brancos de fita. As luzes indiretas multicoloridas, alto-falantes e demais acessórios eram responsabilidade do DJ, já contratado, que faria a alegria da festa com as músicas cuidadosamente escolhidas por nós, representando todo o espírito da nossa época. Preparamos também uma maravilhosa seleção de “clips” com cantores de nossa época, executando as melodias que tantas vezes dançamos nas reuniões dançantes que o COPA organizava. Tudo estava preparado para a grande noite que viria e pudemos ir às nossas casas, para o merecido descanso que antecederia a festa do reencontro.
Chegamos cedo para os preparativos finais, para garantir que nada faltaria à noite memorável ... E dali para a frente, uma espécie de névoa adentrou o salão inteiro cobrindo todo o espaço disponível e o sonho, finalmente, começou a parecer-se muito mais com um sonho do que com a realidade; e as duas coisas se confundiram; e eu já não sabia mais o que era sonho e o que era realidade. Eu ficava, com outros amigos, na entrada do salão, recebendo os convidados que chegavam e nos quais eram imediatamente colocados os crachás, especialmente confeccionados, para identificá-los mutuamente. Outros amigos tratavam de conduzir os convidados às mesas previamente acordadas, sobre as quais eram colocadas pequenas papeletas indicando que aquela já estava reservada ao grupo que chegara primeiro. No sonho, a responsabilidade do mestre de cerimônias fora entregue à minha filha Cláudia, romântica e sentimental, ao extremo desejosa de conhecer, ao vivo, os amigos que tanto e há tanto tempo conhecia das histórias de seus pais. E, no sonho, foi ela que veio, assustada, me contar - ao mesmo tempo em que pedia socorro -, que uma das amigas encontrava-se chorando, inconsolável, à entrada do saguão, emocionada pela constatação imediata da presença de vários amigos antigos. E ao atendê-la, fiquei também empapado pelas suas lágrimas de alegria. Os convidados faziam jogos de adivinhação escondendo os crachás, como se tivessem, subitamente, retrocedido 50 anos no passado. E os abraços e beijos calorosos se sucediam por todos os cantos do salão, as pessoas não acreditando que estavam encontrando amigos de adolescência, que não viam há cinquenta ou mais anos. Uma coleguinha de primário, no velho Grupo Escolar Otávio Rocha, postou-se à minha frente, bracinhos cruzados, escondendo o crachá e, sorrindo, desafiava a minha memória; alguns segundos foram necessários para que eu reconhecesse, no sorriso alegre, daquela senhora simpática, a minha coleguinha brilhante de primário, então com 10 anos de idade. E foram dezenas de alegrias semelhantes, com o mesmo entusiasmo, na recepção aos convidados. Mas a festa estava apenas começando ...
Assim que acomodados os primeiros participantes em suas mesas, onde raramente poderiam ser encontrados, diga-se de passagem, foi iniciada a exposição dos “clips” e os amigos assistiam, emocionados, à execução das músicas que tanto haviam dançado pelos cantores que tanto sucesso fizeram em nossa época; e desfilavam perante todos, artistas que variavam entre Neil Sedaka, Paul Anka e Billy Cafaro, até Ray Conniff e Starry Night Orchestra. O salão encheu-se total e rapidamente e ninguém parava sentado em sua própria mesa, na ânsia de cumprimentar pessoas que julgavam ter reconhecido ou confessar o seu engano.
Assim que todos os cem convidados se fizeram presente, as luzes foram minimizadas e o nosso amigo Beto Abrahão, da comissão, subiu ao local dos discursos e contou, rapidamente, a história da origem da festa e terminou, como absoluta surpresa, me fazendo uma homenagem, como mentor do encontro. Com a surpresa, convidou-me a subir para dar as boas vindas aos nossos cem queridos amigos. E o sonho tomou conta da minha emoção quando declarei a minha alegria aos amigos presentes, pela homenagem aos amigos já partidos, quando relatei as declarações de amor recebidas, as emoções percebidas nos telefonemas e mensagens trocadas; e quando prestei uma singela homenagem ao Dr. Júlio Bocaccio, idealizador do COPA, e sua esposa, D. Alzirinha. E o meu discurso foi, literalmente, para o espaço: mal pude balbuciar umas poucas palavras e cedi meu lugar a outros oradores, para ir abraçar os amigos com que ainda não havia falado. E pediu a palavra o nosso amigo Nelson Motta, o Curuca, ex presidente e um dos líderes do COPA à época. O Curuca lembrou vários episódios da época, envolvendo pessoas e acontecimentos e lembrando, através de uma gravação, o encerramento pontual e bem comportado das reuniões dançantes do COPA. E após algumas palavras, demonstrou a sua alegria em estar participando da festa e despediu-se visivelmente emocionado.
As luzes foram novamente acesas e fomos todos convidados, pela Mestra de Cerimônias, a participar de um maravilhoso jantar, servido e saboreado ao som das músicas da época, gravadas em CD especial, e iluminado por um “power point” especialmente preparado com todas as fotos – antigas e atuais - que haviam sido enviadas pelos amigos e publicadas em nosso álbum na Internet.
A partir daí, tudo começou, realmente, a ficar muito nebuloso, como um verdadeiro sonho sempre é. Todas as ações começaram a se tornar um pouco irreais. Lembro muito bem de ver as pessoas a se movimentarem pelo salão, buscando reconhecer nas várias mesas os amigos antigos. Era estranho constatar que, mesmo modificados pelos anos acumulados, rapidamente se transformavam, assim que identificados, nos mesmos adolescentes de cinquenta anos atrás, com a mesma forma de agir e de falar, alguns até mesmo com as mesmas brincadeiras de tantos anos passados. Não lembro, exatamente, da minha participação pessoal na festa. Lembro de ter tirado algumas fotos com alguns amigos, sentado em umas poucas mesas para uma rápida conversa com outros; mas nem as fotos foram todas as que eu gostaria de ter tirado, nem as mesas que visitei, uma vez que gostaria de te sentado e conversado com todos os meus amigos. Fiquei devendo a todos no sonho e sonhos não se repetem... Lembro perfeitamente que existiam amigos muito queridos e mais íntimos de nossa época, que gostaríamos muito de ter atendido melhor e não pudemos; sonhos não são sonhados totalmente sob o nosso controle. Lembro também de alguns que, por razões pessoais, tiveram que realizar um enorme esforço para estar presentes em nosso festa, sob a minha insistência até mesmo obstinada e teimosa, e não pude a eles dedicar o tempo que eu gostaria de ter dedicado; sonhos sempre deixam a desejar.
Nada faltou em meu sonho, pois a família Bocaccio, representada pelos filhos Nora, Memeis, Meieno e Xyko e seus pares, preparou-nos uma agradável surpresa, providenciando até mesmo um enorme bolo de aniversário, com as velinhas de 50 anos, maravilhosas, brilhando na penumbra do salão. Nora e Xyko fizeram discursos curtos e emocionados, em que agradeceram as homenagens prestadas a seus pais e demonstraram toda a sua alegria por terem participado da organização e estarem vivenciando a festa. Participei, emocionado, do apagar das velinhas, com os amigos da Comissão e os irmãos Bocaccio. E era tudo uma grande alegria, com todos os amigos aplaudindo, batendo fotos e confraternizando, como numa verdadeira grande reunião de amigos de 50 anos.
E chegou, finalmente, a hora tão esperada do baile dos 50 anos. E abrimos o baile, minha esposa e companheira de uma vida, Lene, e eu, com a alegria e a emoção de ver realizado um tão sonhado, construído e esperado sonho. E juntos, os nossos pares de amigos encheram o salão e dançamos todos embalados pelas vozes dos nossos cantores e orquestras preferidas das décadas de 50 e 60. E o sonho tornou-se um sonho realizado; e a névoa do sonho foi-se tornando mais densa e compacta à medida que o tempo passava e as pessoas iniciavam as suas despedidas; e as figuras conhecidas dos nossos amigos do passado se confundiam com a bruma e se desvaneciam na atmosfera do salão pouco iluminado, sem a realidade da despedida, como num verdadeiro sonho...
Eu tive um sonho, há pouco tempo atrás; e foi tão real ... Como eu gostaria que todos os meus amigos do passado pudessem ter compartilhado do meu sonho ....

domingo, 12 de setembro de 2010

AMACORD 2

...Outro combate, muito legal era a guerra dos escudos com bolas de meia. Os dois grupos adversários tentavam , estrategicamente, combater os oponentes , tendo as boladas que acertar qualquer parte do corpo quando então, eliminaria o “inimigo”, até o último “gladiador tombar”!!
... Lembram do Gil Meira ( o laçador de carro – esta história fica para depois), pois o Gil, bem, estávamos na fase de aprender a laçar e o Gil, o sábado todo passou com laço, tentando laçar tudo que encontrava pela frente e com o laço preso no punho, após algumas voltas com o laço acima da cabeça, atirou-o contra um automóvel que passava e desastrosamente laçou seu pára-choque e não tendo tempo de retirar a laçada do punho foi arrastado, pipocando pelo calçamento enquanto gritávamos desesperados para que o carro parasse!! Foi tragi-cômico e felizmente restaram, além do tremendo susto, apenas alguns cortes e arranhões por todo o corpo e muito boas risadas, comentários e pegada no pé por muito tempo!!
E falando em carro, espetacular o roteiro automobilístico , multimarcas, do Carlos Ari.
E, enquanto isso, na Tobias de  Baixo... desfilavam os bólidos Dodge Kingsway 1950 do pai, foto original captada pelas lentes espertas da época, na casa da praia em Tramandaí, o Ford 1951 do vô Hermínio, a Mercury 1952 da vó Santinha, entre outros. Foi no Dodgão '50 que com 13 anos iniciei minhas primeiras peripécias automobilísticas. Os primeiros treinos práticos eram incansáveis idas e vindas dentro do retângulo da garagem e o portão da rua, nos quais fiquei especialista na marcha ré e na primeira; e a volta na pracinha era o limite da ousadia.

Todo sábado, lá estava ele de macacão de mecânico. A oficina era metodicamente organizada com cada ferramenta no seu devido lugar. Como engenheiro, tio Bento, pai do Bento José e do Flávio, entendia tudo da mecânica do motor que montava e desmontava de olhos fechados e na segunda feira lá estava o Citroen 1948 (?) preto, roncando de ré, lomba abaixo na 58, apto para nos levar para o Instituto de Educação. Outro “bólido comentado era o Vanguard 51, preto do Lilito, pai do Beto, mais conservado pois andava quase sòmente nos fins de semana e os pneus ainda eram os originais, de bandas realmente ainda brancas. Já o Ivo Tonin, pai do Bileco tinha um Aero Willys, outra carona espetacular quando o pai estava disponível.
A memória me foge e outros veículos (?) deviam circular nas redondezas, num total insignificante de carros o que nos proporcionava muitas horas ininterruptas, despreocupadas, de “football” no meio da rua. Em alguns sábados à tarde, era no dodgão 50 que o pai levava os dois times – apertados que nem sardinha - América e Perigoso, para jogar no campo da Brigada Militar, na Aparício Borges!
... Dos bondes “gaiola” bem, deles me lembro que “furtávamos” da dispensa, as caixas de fósforos ainda com o lacre e, com os pauzinhos enfileirados um a um, paciente e criteriosamente dispostos, ao longo dos trilhos do bonde, aguardávamos com ansiedade sua passagem só para ouvirmos o metralhar das cabeças dos fósforos explodindo à guisa de um combate sub urbano, sob o rodado metálico, do Gaiola que sacudia quase nauseantemente e, então, assistíamos eufóricos ao feito vencedor!! A outra “sacanagem” era encurtar o cabo do braço que conectava com o fio elétrico, aproveitando o lapso de tempo que motorneiro e cobrador tomavam seu “cafezinho” no boteco da rua Portuguesa e desvirávamos os bancos no sentido contrário; era não ter o que fazer mesmo!! Ao trocar de trilho, invariavelmente o braço deslocava causando uma parada brusca no bonde!! As risadas vinham acompanhadas do coro de xingamento dos funcionários da Carris.
Para encerrar este “revival” de emoções, e quantas, algumas dos carnavais da SAT já tão bem lembrado pela Lenora. Em verdade vos digo a SAT era quase no quintal lá de casa, bastava atravessar a Riachuelo e a porta da Boate era nossa entrada lateral. Do alpendre de casa não só visualizávamos a movimentação do entra e sai, termômetro que a festa seria boa, ou um fracasso – fato muitíssimo raro - como também , ouvíamos a música do Baldaulf, prevendo já, os acordes seguintes.
Na foto ao lado, este que vos escreve estas mal traçadas linhas, no auge de seus, o que, oito, nove anos , num dos bailes de carnaval infantil, sábado à tarde, obviamente, exibindo um modelo inédito trazido, de presente, de Buenos Aires, sentindo- se o Roy Rogers em pessoa. Notem que além do cinturão com DOIS COLDRES equipados com revolveres 38 com espoletas (réplicas perfeitas é claro) empunha na mão esquerda uma banana!? Isso mesmo uma banana – bisnaga – que continha a arma mais “letal” do baile o terrível e muito temido - SANGUE DO DIABO –
Segue a fórmula “secreta” para quem quiser usar no dia 18 próximo vindouro!
Meio copo de água potável
4 gotas de um produto de limpeza com amoniáco (ex: ajáx)
1 comprimido de Lacto-purga
Meio copo de álcool comum
Filtre a mistura e coloque em um frasco de desodorante vazio, ou numa banana!!, e pronto ...pode brincar de molhar...
O TERROR das menininhas do baile pois enquanto desfilavam suas belas, maravilhosas e alvas fantasias de fadinhas, melindrosas e outras tantas bem produzidas ou outras rápida e inteligentemente improvisadas, eram sorrateiramente atingidas pelos jatos “ espraiados “ de sangue do diabo, que manchavam de vermelho vivo seus modelitos. A infeliz contemplada, vendo sua roupa toda “ ensangüentada”, corria aos prantos para sua mesa. Daí, acompanhada da mãe, partiam enfurecidas para a secretaria do clube reclamar! Com o salão e as dependências do Clube invariavelmente lotados, já que O CARNAVAL DA SAT ERA O MELHOR DE TODA A ORLA MARÍTIMA, “risos”, o tempo de demora até a sala da secretaria era o tempo necessário para a substância evaporar sem deixar vestígios do crime!! Claro que não tardava sermos identificados, até porque em alguns casos com maior repercussão acompanhávamos de tocaia o desfecho da ocorrência e, no auge da satisfação, a queixosa boquiaberta, não entendendo mais nada, verificava que sua fantasia estava em perfeito estado - estava chorando e reclamando porquê - ?! Era o máximo da glória e tão logo recuperávamos o fôlego após muita risada, procurávamos nova vítima!!
Importante comentar que éramos vigiados pelos diretores e alguns (colaboradores) leões de chácara do Clube que tentavam exaustiva e pacientemente manter a ordem e o decoro do salão. Neste particular não poderia deixar de mencionar o nosso saudoso e carinhosamente chamado Arturito que zelosa e incansavelmente intermediava as rusgas conseqüentes de nossas “brincadeiras” e tentava em vão, convencer-nos a não usar tais artefatos!!
...Lá pelos idos de 1962, a foto não me deixa mentir... as irmãs Ulrich, as irmãs Bocaccio e a prima Vanise formavam o belo bloco das “ arrumadeiras” , o que iriam arrumar... !? Iniciand, pela esquerda, a Carmem com o Sérgio, a Meieno com o Décio, a Roseli, a Lia, a Memeis, a Lúcia com o Eduardo e a Vanise com Milton. Era mais um dos tantos carnavais “SATíricos” ou “SATânicos” de Tramandaí.

Espero ter reacendido momentos da infância de uns, adolescência de outros , que o tempo permite sim, fazer relembrar !
Um forte abraço a todos os e as COPENSES! ATÉ NOSSA JANTA!

Autor: XYKO BOCACCIO

sábado, 24 de julho de 2010

ACRÓSTICO DO COPA

Aqui vai minha contribuição para a coletânea literária.


Com toda nossa alegria
Ouvimos a convocação
Para que no grande dia
Abracemos de coração

50 ou 60 não importa


Apesar da nossa idade
Nada vai impedir
O coração de sentir
Sempre a grande amizade

Demos graças ao bom Deus
Estamos matando a saudade
Pois, notícia alvissareira
O baile, a janta, a dança
Isso é curtir, brincadeira
Saúde, brinde, lambança

Autor: MARIA INÊS BOCACCIO DE YALUK

quarta-feira, 14 de julho de 2010

DA SÉRIE "ROMANCES ANTIGOS"

Naqueles idos tempos de 1954 ou 55, o Nelson Azambuja, com os seus dez, onze anos, já namorava a minha amiga de sempre Selene, entre nós apenas Lene. O Nelson tem um irmão, o Nei, que sendo exatamente um ano mais novo que o meu irmão Toninho, teria naquela época os seus onze ou doze anos de idade. Como brincávamos sempre juntos e o Nei era bem bonitinho, até por facilidade do arranjo, comecei a "arrastar uma asa" para o seu lado. Com isso, se a coisa desse certo, a melhor consequência de toda a história é que a Lene e eu seríamos cunhadas, fortalecendo ainda mais a nossa amizade, já tão consolidada. Coisas de gurias daquela época; penso que hoje em dia as idéias dominantes sejam bem diversas daquelas que predominavam antigamente.
A idéia fortaleceu-se de tal forma que me foi entusiasmando e o meu coraçãozinho, da transição infância-adolescência, passou a aprová-la e cultivou outros sentimentos. Tão mais importantes, que um dia me animei a escrever a minha primeira poesia:

"Na terra nasce a flor
E no meu coração
Irraizou-se o amor."

Acabou não dando em nada, como poderia ter dado. Mas outros amores aconteceram, como era normal, e a vida continuou trilhando o seu destino.

A provocação está lançada! Penso que, com um convite como esse, o Nei não poderá mais furtar-se a comparecer ao nosso grupo dos amigos do COPA. Nem que seja para contar a sua versão.

Beijo a todos.

Autor: MARIA DO CARMO LANDELL DE MOURA (CAMO).

quarta-feira, 30 de junho de 2010

REMINISCÊNCIAS

Queridos Selene e Nelson
O bom da vida é mesmo a gente ter a possibilidade de lembrar! É sinal de que ainda estamos bem vivos e, apesar do tempo, muito capazes de pensar e agir com o coração e a mente lúcidos e inteiros!
Melhor, ainda, é sabermos que na terra existem a emoção, o carinho, a amizade, a gentileza e, acima de tudo, muito amor!
Com o amor, vieram as lembranças de um tempo já bem distante, que nos fez, num só golpe de sorte, trocarmos o ontem pelo agora, numa felicidade tão grande que quase nos impede até de termos a certeza de que isto aconteceu!!!!
Cada vez me convenço mais: o ser humano é incrível! Que capacidade tem de amar e de sofrer pelo irmão! Como é capaz de transformar-se, num repente, e pensar: será que eu ainda tenho 22 anos? ou 16? ou 14? ou 24? Essas eram as nossas idades naquele tempo em que a bola corria pela Tobias, pela Paisandú, pela Machado e arredores! Essas eram as idades das meninas "casadoiras" que se achegavam para a mais velha, já casada, para conversinhas nas arquibancadas, fingindo que assistiam aos treinos dos meninos, com os olhinhos espichados para o campinho ou o meio da rua!!!! Tempo muito bom aquele, como muito bom é o de hoje! Afinal, tivemos a chance maior e a felicidade de nos revermos inteiros e com saudade, muita saudade!
Obrigado, queridos Nelson e Selene, pelas horas de lembranças e de amenidades! Quantas memórias, quanta história! Quantos foram esses amores da nossa infância, adolescência e juventude!
Obrigado a vocês pela oportunidade de nos vermos e nos enxergarmos no fundo de nós mesmos, do que fomos e do que somos hoje: retrato fiel do nosso passado e presente que está sendo capaz de nos mostrar que neste mundo existe amizade, afeto, solidariedade e de que, apesar da distância , no coração e na mente existem gavetas recheadas de amor onde sempre se encontra aquilo que aparentemente estaria perdido ou amarelado pelo tempo. Minha querida mãe Alzirinha , dizia muitas vezes que RECORDAR É VIVER!! Então, queridos amigos, estamos bem vivos e cheios de muito boas recordações ! E isto é muito importante e nos faz muito felizes.
Nosso beijo muito carinhoso,
Nora e Cinel

Autor: NORA BOCACCIO CINEL

terça-feira, 29 de junho de 2010

A TRIBO DA TOBIAS DE CIMA - PARTE 3

Olympia, a órfã

Lá por 1956 ou 1957, meu pai um dia chegou todo faceiro, trazendo Olympia. Vamos tratá-la assim; primeiro por ser este o nome que lhe foi dado pela Adam Opel GmbH, de Russelheim, Hessel, Alemanha, onde nascera em 1939, e também por sua semelhança de caráter com a personagem principal daquele recente filme assustador, “A Órfã”.
Pois Olympia, a órfã, era tal e qual Esther: bonitinha, recatada, carinha de boa menina. Quem a visse não lhe dava mais que oito anos, embora já tivesse quase dezenove. Logo conquistou a família toda, principalmente o coração de meu pai, que pela primeira vez na vida deixava a condição de sócio da Companhia Carris Porto-Alegrense e passava à categoria de cidadão motorizado. Tinha por volta de 37 anos e até então só havia pilotado bicicleta., além dos cavalos do regimento de São Luiz Gonzaga, no qual servira como reservista do CPOR.
Olympia era azul marinho, tinha acomodações para quatro adultos e pneus banda-branca. Sua carcaça estava em perfeitas condições, porém o mesmo não se poderia dizer de seu organismo, cujas mazelas foram se revelando aos poucos. Uma de suas doenças crônicas, que se revelou logo no dia da chegada, foi sua resistência a entrar em funcionamento.

Olympia 1939

Seu engenhoso sistema de arranque consistia num pedal revestido de borracha e no formato de uma seção cilíndrica, que ficava posicionado entre os pedais do acelerador e do freio e ligeiramente acima destes. Para dar partida no motor, o motorista ligava a chave da ignição para que a energia elétrica da bateria fluísse pelo sistema; depois, colocava a ponta do pé direito ligeiramente torcido para a esquerda sobre o tal pedal de arranque de modo que seu calcanhar repousasse sobre o pedal do acelerador; feito isto, pressionava o pedal do arranque com a ponta do pé até o motor começar a pegar, quando então, coordenadamente, aliviava a pressão na ponta e pressionava suavemente o calcanhar sobre o pedal do acelerador. Era uma espécie de “punta e taco”. Coisa de alemão. Devia funcionar às mil maravilhas desde que o motor funcionasse, o que no caso da Olympia nunca acontecia.
Já na primeira saída, Olympia mostrou a que viera. Entusiasmado com o carrinho, carteira recém-adquirida, o velho resolveu visitar a irmã, que morava na Vila do IAPI. Convidou para o passeio a mim e ao meu irmão, o Polaco. Incautos, aceitamos.
O trajeto previa a subida da Protásio Alves, que na época misturava bondes com automóveis, ônibus e carroças. Numa parada em subida, Olympia fingiu-se de morta. Para fazê-la pegar, o velho decidiu proceder como lhe haviam soprado. Engatou uma ré, pisou no pedal da embreagem, mandou que nos abaixássemos para que ele pudesse enxergar atrás (estávamos os dois no banco traseiro) e se mandou de ré Protásio abaixo, tentando fazer Olympia pegar no tranco. Lá atrás, eu e o Polaco, apavorados, víamos automóveis, ônibus, carroças e pedestres fugindo daquele carro que vinha aos trancos na contramão. Imaginávamos a hora em que surgiria um bonde, menos flexível, quando então seria o nosso fim. Surpreendentemente, a manobra foi bem sucedida. Olympia pegou, chegamos são e salvos ao IAPI e retornamos à Tobias inteiros, sem um arranhão sequer.
De outra feita ela se esmerou na armadilha para eliminar todos de uma só vez. Era um sábado de sol e o velho resolveu proporcionar à família a degustação de um café colonial em Morro Reuter. Olympia parecia radiante e feliz, como todos nós. Criaturinha dissimulada...
Partimos por volta das onze da manhã e chegamos sem novidades. Refestelamo-nos com o café colonial, passeamos a pé um pouco pelas redondezas e embarcamos felizes e contentes na Olympia, que nos aguardava com um sorrisinho maroto. Achamos que ela também estava apreciando o passeio. Até que estava, mas não da forma que imaginávamos, como verão a seguir.
Vencido o primeiro obstáculo, isto é, a partida do motor, que excepcionalmente foi normal, o velho afastou-se do estacionamento de ré, engrenou uma primeira e ingressou na estrada, que naqueles tempos se chamava BR-2. Foi esta a última vez que conseguiu movimentar a alavanca de mudança de marcha e o pedal da embreagem. Imaginem isso na descida da serra. Olympia nos obrigou a trazê-la direto a Porto Alegre sem parada, nem em engarrafamento, nem em sinal, nem em nada, sob pena de ficarmos plantados no caminho, aguardando um socorro quase impossível (os celulares ainda estavam sessenta anos no futuro).
E assim viemos, furando barreiras policiais e interdições de meias-pistas, ultrapassando na contramão, jogando carros para o acostamento e varando sinais fechados. Por obra e graça da sorte, chegamos sãos e salvos à nosso porto seguro, à Tobias de Cima. Dava para ver a contrariedade estampada na fisionomia de Olympia. Seu plano perfeito de eliminar toda a família não podia ter dado errado. Da próxima vez, ela não falharia.
Mas não haveria uma próxima vez. Depois de gastar mundos e fundos recuperando Olympia; de deixá-la como nova, meu pai convidou minha mãe para irem ao Cinema Baltimore. Era aniversário de casamento deles, e o programa incluía cinema e um jantar a dois. Ele foi com seu melhor terno de linho branco, pois fazia calor. Na saída do Baltimore, quando entrava no carro, descobriu um pneu vazio. Tirou o paletó, pegou o macaco no porta-malas, improvisou algo para entrar embaixo do carro sem se sujar e foi ai que Olympia resolveu se vingar.
Começou por esconder o encaixe do macaco, uma coisinha que mais parecia peça de playmobil. Como se isso não bastasse, ela providenciou um vazamento de óleo exatamente sobre os olhos do velho, que escorria depois para a camisa de casimira. Para encurtar essa já longa história, basta dizer que no dia seguinte o velho a levou embora para nunca mais.

Ford 1939

Trocou-a por um Ford 4 portas 1939, cor cinza. Levou-me com ele na Rua Laurindo, onde ficava a revenda. Sentamos lado a lado no banco da frente. A primeira coisa que ele fez, ainda dentro da loja, foi ligar a chave e apertar um botãozinho que havia no painel, o botão de arranque. Ato contínuo, o motor de oito cilindros em V pegou com um estrondo possante. Em meio ao barulho, que reverberava nas paredes da revenda, e do cheiro forte de gasolina, virou-se para mim e sorrindo feliz disse: ― Viu, este pega!

Autor: CARLOS ARI

sexta-feira, 25 de junho de 2010

CONSULADO DO COPA EM TRAMANDAÍ

Além de vizinhos em Porto Alegre, alguns de nós éramos vizinhos em Tramandai. O consulado do Copa concentrava-se na Rua Riachuelo, lateral da Sociedade de Amigos de Tramandai – SAT, unindo a Paissandu de Cima e a Tobias de Baixo.
Na esquina da Riachuelo com a Avenida Ubatuba de Farias, morávamos os Ulrich: Arturito, Nancy e quatro filhas. Além das festas da SAT, que só passei a freqüentar depois dos 14 anos, tínhamos o mar com o “footing” das garotas, onde Vanise e Carmem Maria caminhavam como deusas. Para mim, pirralha desengonçada, elas eram um ideal inatingível de beleza. Também havia a piscina da SAT, os longos passeios de bicicleta, os papos preguiçosos nas redes, sem faltar, é claro, as serenatas, que rapazes menos assustados com a fama de pai furioso do Arturito faziam junto à nossas janelas, recebendo em retribuição alguma bebida para esquentar (as noites na praia podiam ser frias) e um papo bem levado do Arturito e Nancy com seus quitutes, com as meninas “candidamente” postadas nas janelas!
Na esquina seguinte veraneava a família Lima: Dr.Bento e esposa, Bentinho, Eunice e Flávio. Era uma família muito simpática e acolhedora.
A meia quadra de distância, moravam os Bocaccio, uma família de muitas mulheres: Nora, Lúcia, Memeis, Meieno e, cerrando a fila como exceção à regra, Xyko, como ele mesmo se assina.
Mais adiante, cruzando a avenida que ia dar no mar, na mesma Riachuelo, tinham casa Vó Santinha, o casal Lunardi e Vanise e Hermínio (Minho), seus filhos. Vó Santinha era a matriarca da turma da Tobias de Baixo e dela saíam os ramos Lunardi, Bocaccio e Lima, todos primos entre si.
Com o casamento da Nora Bocaccio com o professor Cinel, colega de faculdade e de magistério do Sérgio Teixeira, marido da Carmem Maria, minha mana, estreitaram-se os laços de amizade das duas famílias, que perduram até hoje.
O Flávio e o Minho eram meus amigos mais próximos na rua. Flávio entrava no bloco da nossa rua, com algumas escapadas nas turnês do bloco oficial da SAT à outras praias.
Vim a encontrar o Hermínio tempos depois através de amigos comuns, que adoravam organizar reuniões nas quais os participantes contribuíam com seus dotes musicais.
Quando obtive permissão para freqüentar bailes e reuniões dançantes da SAT, nossa turma ficava responsável de vez em quando pela “ambientação” da festa com temas como: Havaí, Velho Oeste tipo cow-boy, etc... Fizemos até decoração de um carnaval que ficou ótima, com a direção dos trabalhos entregue ao Flávio Lima, que a esta altura já era estudante de Arquitetura. Acho que os papos com o Flávio e com o professor Lunardi acabaram influenciando a escolha de minha profissão e, em 1973, recebi o diploma das mãos do querido Prof. Lunardi, então diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRGS.

Autor: LENORA ULRICH

quinta-feira, 24 de junho de 2010

ANA MARIA LANDELL DE MOURA - APRESENTAÇÃO PESSOAL

Querido Nelson,
Fiquei muito feliz em receber teu telefonema e o carinho que me proporcionaste com tantas lembranças de um tempo maravilhoso, onde convivemos no Partenon da nossa infância e adolescência.
Embora de uma geração um pouquinho mais adiante da de vocês, em sua maioria, relembrei, olhando o Blog e as fotos que postaste, cenas, fotos e pessoas que estavam um pouco adormecidas na minha memória, mas não no meu coração. Soube, assim que eu revi todas as parcelas de histórias referidas por vários de meus queridos amigos e vizinhos do passado, a importância de se buscar, neste presente em que vivemos, um pouco dos nossos sonhos e ideais, e até para fazermos, por assim dizer, um alegre retrospecto de nossas vidas.
A Paissandú nº 284, ainda frequento semanalmente e a casa continua a ter a mesma referência familiar, pois minha mãe Jessie, com 90 anos, ainda mora lá e meu irmão "joãozinho", como carinhosamente o apelidas, também ali reside. Assim continuo geográfica e emocionalmente focada na nossa Paissandú e no nosso Partenon, relembrando, toda vez que por ali circulo, a história de cada casa e da família que ali morou e as marcas que deixaram em todos nós. Por esta circunstãncia ainda convivo com alguns amigos e vizinhos que ali ainda permanecem...assim o distanciamento ficou um pouco mais próximo !
Aproveito este primeiro contato para dar alguns tópicos de minha vida atual, posssiblitando aos amigos de 50 anos atrás me situarem um pouco neste presente.
Me formei em Direito pela PUC, e logo ingressei na carreira de Procurador do Estado do Rio Grande do Sul, por onde me inativei. Estudei em Paris para uma especialização em Direito Público, fui Conselheira da Ordem dos Avogados do Rio Grande do Sul, Diretora Financeira do Instituto dos Advogados e exerci, durante minha vida profissional, varias atividades de assessoramento jurídico em diversas Secretarias e órgãos estatais.
Me casei com um colega da Faculdade de Direito, Frederico Carlos Gomes Neto, de familia oriunda do Menino Deus e colega da Puc, reencontro este que se deu muitos anos depois de nos formarmos. Não tenho filhos e assim meus sobrinhos ficaram neste lugar, juntamente com as netinhas do meu marido.
Atualmente resido no Bairro Petrópolis. E me recordo agora, que muito andei de bicicleta por aqui nos finais de tarde, com Tania e Olenca, que foram moradoras por muito tempo da Paissandú. Para relembrar, Tania , Olenca - que casou com o Sergio Cohen, também morador do Partenon -, e Maslova eram três irmãs com quem muito convivi. Dona Lorlai era a mãe e tinha uma avó, que também morava com elas e infelizmente não estou recordando o nome. Moravam quase em frente da residência do nosso querido e não mais presente Bruno.
Nesta pequena retrospectiva que estou fazendo em razão do COPA e deste reencontro, não posso deixar de aqui referir o quanto o meu querido irmão Antonio, que lastimavelmente tão cedo nos deixou, ficaria feliz e entusiamado com esta confraternização, ele que foi um dos "sócios fundadores" entre outros amigos dessa idéia social, e era uma pessoa muito comunicatival, alegre e integradora.
Asim, embora não tenha convivido diretamente com muitos dos integrantes do COPA, me relacionei através dos meus irmão e irmãs, pois na realidade éramos cinco, e meu pai gostava muito que os amigos frequentassem a nossa casa.
Estas são as minhas primeiras impressoões, desencadeadas por teu amável telefonema, e que eu gostaria de que nossos amigos de 50 anos também participassem, tal como no nosso passado sabíamos uns dos outros.
Um abraço carinhoso para ti , Selene e aos demais integrantes do Blog da família Copa.

Autor: ANA MARIA LANDELL DE MOURA.

domingo, 20 de junho de 2010

A TRIBO DA TOBIAS DE CIMA - PARTE 2

Como naqueles tempos automóvel zero quilômetro era artigo de luxo, a Tobias de Cima era povoada de veteranos do asfalto que fariam a felicidade de colecionadores e a fortuna de nós todos, seus presumidos herdeiros, tivessem eles se conservado íntegros e bem compostos ao longo desses últimos cinqüenta anos, coisa que infelizmente nenhum deles conseguiu, nem nós.
No lado par da rua, a partir da pracinha, seu Julio Patta era pedestre. Seu vizinho do lado, um francês que tinha pavor de barulho de bombas e rojões de São João, e que por isso comentavam ter neurose de guerra, possuía um Citröen preto. Seu José Barbosa Falcão, pai da Zenaide, tinha um Austin A-70. Seu Dirceu Gastão Viggevani, pai da Dirce, tinha garagem, mas não tinha carro. Meu pai adquiriu um Opel Olympia modelo 1939, isto por volta de 1956 ou 1957. Seu Tupy Prestes, pai do Tonho, tinha um Dodge 1951. O pai do Jorge e da Jane Crivelaro era proprietário de um Ford 1951 azul marinho, verdadeira jóia que ele mantinha a maior parte do tempo na garagem, polindo suas partes niqueladas e lustrando sua flamante lataria.
No lado ímpar, seu Rosa, marido de Dona Julieta, possuía um belo Rover verde-garrafa 1952. Doutor Guido sonhava com helicóptero, mas andava a pé. Seu Carlos Azambuja, pai do Nei e do Nelson, tinha um Prefect ou Anglia e seu Hélio Oliveira, pai do Sohel e do Helso, tinha um Renault 4 v 1950, “Rabo Quente” ou “Carmem Miranda”. Para os não iniciados, explico os inusitados codinomes.
Naquele tempo, havia um pequeno Renault quatro portas, avô do Renault-Willys Dauphine fabricado no Brasil nos anos 1960, que comportava quatro pessoas apertadas. Tinha o motor traseiro e os apelidos “Rabo Quente” ou “Carmem Miranda” devido à ilação perniciosa, feita pelo povo, entre a localização e temperatura de seu motor e o frenético sacolejar das partes posteriores da famosa cantora e atriz luso-brasileira.
Dentre todos os automóveis da rua, alguns participaram de memoráveis aventuras. Dois, no entanto, destacaram-se dos demais pelas freqüentes dores de cabeça que davam a seus proprietários, deixando-os na mão nas ocasiões mais impróprias e inesperadas. Estes eram o Renault do seu Hélio e o Opel de meu pai. Os dois eram como aqueles endiabrados personagens da história em quadrinhos “Os sobrinhos do capitão”, o Hans e o Fritz, que viviam aprontando. Ambos recusavam-se terminantemente a despertar através de seus respectivos motores de arranque. Exigiam a força de “baterias externas”, isto é, de impulsos mecânicos fornecidos pela gurizada da rua. Trajando uniformes escolares e carregando nossas pastas debaixo do braço, empurrávamos ora o Renault ora o Opel lomba abaixo e depois corríamos para alcançá-los; cena rotineira nas manhãs da Tobias de Cima.
Dos dois, o “Rabo Quente” era o mais sacrificado. Normalmente operava com excesso de carga, haja vista que tanto seu Hélio quanto seus dois filhos eram grandes e pesados. Não poucas vezes a família foi surpreendida pela quebra de uma ponta de eixo do carrinho nos esburacados caminhos que então conduziam à praia da Alegria, onde os Weber de Oliveira costumavam veranear.
Os contumazes abusos do “Rabo Quente” à paciência de seu proprietário chegaram ao fim certa manhã em que ele apagou na subida da lomba do sétimo, bem na hora do pico. Após várias e infrutíferas tentativas de fazê-lo pegar, seu Hélio desembarcou furioso e passou a agredi-lo a socos e pontapés, cena de selvageria testemunhada pela atônita platéia embarcada nos bondes, ônibus e automóveis que transitavam pelo local. Muitos que acreditavam estar assistindo a um surto de loucura do proprietário do indefeso carrinho certamente mudariam de idéia se conhecessem os antecedentes da “vitima”. Depois desta, seu Hélio trocou o Renault por um Oldsmobile hidramático, modelo 1948, cor cinza, grande e robusto, bem mais adequado à família do que o pequeno e frágil “Carmem Miranda”.

Autor: CARLOS ARI